Há uma semana, a Taça BH de Futebol Júnior ganhou grande destaque devido à voadora do goleiro Gustavo (Sport) no volante Elivélton (Vasco), em Barão de Cocais, pela terceira rodada da primeira fase. As imagens do agressor acertando a sola da chuteira na cervical do companheiro de profissão, que estava de costas, correram o mundo e provocaram discussões acaloradas, que ainda repercutem.
Mas nem só de drama vive a competição, uma das mais tradicionais das categorias de base do futebol nacional. Se o incidente promete desdobramentos – afastado pelo rubro-negro pernambucano, Gustavo foi indiciado por tentativa de homicídio duplamente qualificado (motivo fútil e recurso que impossibilitou a defesa da vítima) –, a disputa prossegue em sua 27ª edição, alimentando sonhos de garotos que veem no futebol a grande oportunidade de futuro melhor. A cada partida, jovens valores tentam provar que merecem passar pelo estreito funil rumo ao profissionalismo.
Para isso, é preciso superar muitos obstáculos antes da concretização do sonho de atuar em um estádio cheio, como Mineirão, Maracanã, Camp Nou, San Ciro, Wembley... Se o objetivo é chegar a um palco perfeito, o caminho passa por gramados ruins ou campos totalmente sem grama, que fazem a bola quicar, impedem as tabelas, dificultam as finalizações. Locais onde a poeira costuma turvar a visão, mas sem impedir de vislumbrar os holofotes da fama; em que vestiários têm pouca ventilação, a água quase nunca é quente e tijolos soltos viram o degrau mais alto do pódio na imaginação de um menino mal saído da adolescência.
Foi pensando nisso que os garotos de Cruzeiro e Siderúrgica entraram em campo na tarde de quinta-feira, no Estádio Eli Seabra Filho, em Sabará. Com ampla superioridade física, técnica e tática, os celestes não tiveram dificuldades em fazer 4 a 0 e garantir a classificação às oitavas de final. Mas em nenhum momento eles deixaram de lembrar onde estavam. “O (técnico) Alexandre (Grasseli) sempre fala para a gente que temos de nos empenhar ao máximo a cada jogo, pois tem muito jogador querendo nosso lugar. Quem quer vencer, se tornar profissional, como é o meu caso, tem de superar todas as dificuldades”, diz o atacante Vinícius Araújo, de 18 anos, autor de um dos gols da goleada.
Natural de João Monlevade (Vale do Aço), ele chegou há quatro anos à Raposa, quase ao mesmo tempo que o volante Lucas, também de 18, que teve de viajar bem mais para tentar realizar o sonho: é de Bom Jesus de Goiás. Mas o ponto de vista é o mesmo: “Praticamente todos que estão aqui passaram por dificuldades, têm histórias de muita luta. Então, encarar gramado e infraestrutura ruim não assusta ninguém. Esta é uma etapa que temos de cumprir para nos tornarmos o que desejamos: atletas profissionais”.
Dura realidade
Se jogadores de grandes clubes, como Cruzeiro e Atlético, têm à disposição tudo necessário para se preparar bem para as competições, atletas do Siderúrgica, por exemplo, têm de ralar dobrado. Não bastasse encarar adversários mais bem preparados, necessitam driblar a falta de estrutura em busca de um lugar ao sol. Nada disso, porém, os desanima. “Tentamos encarar qualquer equipe de igual para igual. A vantagem que elas possam ter a gente tira na determinação, na pegada”, afirma o volante Vítor (19), que deixou Orizânia, na Zona da Mata, para tentar a sorte no time de Sabará.
Galo e Raposa no gramado
A Taça BH de Futebol Júnior conhecerá hoje os últimos classificados às quartas de final. O Atlético, que obteve cinco vitórias em cinco jogos na primeira fase, enfrenta o Corinthians, às 14h, em Nova Serrana.
O time do técnico Rogério Micale perdeu o lateral-esquerdo Eron, requisitado para o time principal pelo técnico Dorival Júnior, mas tem outros atletas que já atuaram entre os profissionais. Entre eles se destacam o armador Bernard e o atacante Cláudio Leleu.
O Galinho vem de vitória por 3 a 0 sobre o Guarani de Pará de Minas. Foram 12 gols marcados na primeira fase e nenhum sofrido, única equipe a não ser vazada na competição.
O Cruzeiro também volta a campo hoje. Enfrenta o Coritiba às 20h, em Pedro Leopoldo. O time do técnico Alexandre Grasseli perdeu uma vez, sofrendo 3 a 0 para o Flamengo, mas também se classificou em primeiro lugar em seu grupo.
Mais jogos Outros dois times que seguem com 100% de aproveitamento estarão em ação: às 16h, o Internacional pega o Metaluzina, em Nova Serrana, e o Figueirense encara o Palmeiras às 19h, em Ponte Nova.
Os primeiros quadrifinalistas foram definidos ontem, todos nos pênaltis. O Grêmio avançou depois de empate sem gols com o Bahia, o mesmo ocorrendo com o Fluminense diante do América e o Goiás frente ao Atlético-PR. Já o Pedro Leopoldo venceu o Guarani nas penalidades máximas depois de ficar no 2 a 2 no tempo regulamentar.
Segundo a FMF, amanhã jogam Fluminense x Grêmio, às 15h30; e Pedro Leopoldo x Goiás, às 17h30. Ambas as partidas serão disputadas em Barão de Cocais.