Futebol Nacional

HELENO

A glória

Ele não dava sossego aos adversários. Nem aos companheiros

postado em 05/02/2012 08:38 / atualizado em 10/02/2012 18:50

Renan Damasceno - Estado de Minas
Fotos de Alexandre Guzanshe
Enviados especiais a Barbacena, Rio e São João Nepomuceno

Desde cedo, Heleno de Freitas recebia tratamento de príncipe. Quarto filho de uma família de seis irmãos – Marina, Rômulo, Heraldo, Oscar, ele e a caçula, Vera –, nasceu em 12 de fevereiro de 1920. O pai, Oscar de Freitas, negociava café e era um dos donos da Casa Americana, bazar de secos e molhados no Centro de São João Nepomuceno. A mãe, Maria Rita de Freitas, a dona Miquinha, professora, cuidava para que as vontades dos os filhos fossem prontamente atendidas.

Para segurar o ímpeto do mais novo dos homens, Heraldo o levava aos treinos do Mangueira, clube local. Para o menino de apenas 7 anos, cada pelada era final de campeonato. “Fizemos o terceiro ano de grupo juntos em 1928, no Coronel José Braz. Jogávamos bola no pátio e o Heleno de vez em quando perdia as estribeiras se o companheiro errasse”, lembra Isautino Alves, o Tininho, de 94 anos.

A infância tranquila, porém, só durou 11 anos. Em 1931 Oscar morreu, de pneumonia, e dois anos depois dona Miquinha decidiu levar a família para o Rio. Os Freitas se instalaram no Edifício Serrano, à Rua Lafayette, 29, em Copacabana, de onde Heleno seguia a pé até o Posto 4 para ver os treinos do Posto 4 F.C., do técnico Neném Prancha. Em pouco tempo, tornou-se destaque do time.

Levado por Neném Prancha a General Severiano com 15 anos, Heleno passou a ver de perto astros como Carvalho Leite – a quem sucederia – e Leônidas da Silva – de quem herdaria vaga no ataque da Seleção. No ano seguinte, com o fim do departamento de menores do Botafogo, foi treinar no Fluminense, mas desentendimentos com treinadores o impediram de continuar nas Laranjeiras.

Em 1939, convencido pelo ex-companheiro de Posto 4 João Saldanha, retornou ao alvinegro. Não tardou a se tornar o centro das atenções, ainda mais depois de comprar um Chrysler último tipo. Mesmo se o treino fosse às 7h, chegava com cabelos penteados e ternos impecáveis. Tudo isso numa época em que a maioria dos jogadores vivia na penúria e o futebol engatinhava no profissionalismo.

Logo na estreia do Carioca de 1940, marcou os gols da vitória por 2 a 0 sobre o São Cristóvão. Com o mineiro Geninho, contratado ao Palestra Itália (futuro Cruzeiro), formaria afinada dupla. Na temporada seguinte fez 30 gols em 37 jogos e no Carioca de 1942 foi artilheiro com 28. No auge da forma, em 1944, ao chegar à Seleção na vaga deixada por Leônidas, recebeu o apelido de Diamante Branco. “Era um artista jogando: driblava com esmero, corria em gestos perfeitos. Enriquecia o futebol com melodias corporais de raro efeito. Poucos craques na história do futebol conseguiram ou conseguirão jogar tão bem de cabeça quanto ele”, escreveu o jornalista Armando Nogueira.

Por sete anos, Heleno foi a estrela do Botafogo, em carreira marcada por excessos. À medida que se descontrolava, dentro e fora de campo, o jejum de títulos se prolongava. Ao assumir a presidência em 1948, Carlito Rocha recebeu um aviso do técnico uruguaio Ondino Vieira, de saída do clube e substituído pelo estreante Zezé Moreira: o time não era campeão por causa de Heleno. O dirigente não hesitou em apressar a saída do craque-galã.

EXÍLIO AO SOM DE TANGO

Heleno foi vendido ao Boca Juniors no início de 1948, até então na maior transação do futebol sul-americano: 600 mil cruzeiros (hoje o equivalente a R$ 197 mil). Desembarcou em Buenos Aires como esperança de um time em crise. Mas se no Brasil os delizes eram perdoados, os argentinos reagiram duramente. Em pouco tempo o craque já estava brigado com o grupo, inclusive o atacante brasileiro Yeso Amalfi, de quem havia ficado amigo, e a estrela do futebol nacional, Mario Boyé.

Ainda em 1948, casou-se no Rio com Ilma. Com ela, desembarcou em Buenos Aires para tentar reconquistar a torcida do Boca, mas, 17 jogos e apenas sete gols depois, retornou ao Brasil e foi desdenhado pelo Botafogo, que voltou a ser campeão. Em 1949, pelo Vasco, conquistou seu único Carioca. Expulso logo na estreia, não deixou saudades. Indignado com a reserva, invadiu um treino armado para tirar satisfação com Flávio Costa, técnico também da Seleção. Pagou caro: ficou fora da Copa de 1950.

Heleno partiu para o Eldorado colombiano. No Atlético de Barranquilla, encantou jovem jornalista que havia tentado em vão ser goleiro: Gabriel García Márquez, repórter do El Heraldo, que 30 anos mais tarde ganharia o Nobel de Literatura. Torrou tudo o que recebeu, voltou ao Rio decadente, com os nervos minados, e acertou com o América-RJ. Em 4 de março de 1951, atuou pela única vez no Maracanã. Ao receber passe errado, irritou-se e não se esforçou mais. “Papai foi ao Maracanã e quando viu tio Heleno parado no meio-campo, olhando para a arquibancada, completamente fora de si, viu que não dava mais para ele”, conta Helenize de Freitas, filha de Heraldo. O camisa 9 foi expulso aos 25min de jogo. O palco era grande demais, profissional demais para sua alma amadora.

ATAQUE DOS SONHOS

Heleno foi convocado pela primeira vez para a Seleção Brasileira em 1944. Com a camisa verde-amarela, foi campeão da Copa Roca contra a Argentina (1945) e da Copa Rio Branco contra o Uruguai (1946). Nessa época, formou aquele por muitos apontado como o melhor quinteto ofensivo da história da Seleção: Tesourinha, Zizinho, Heleno, Jair e
Ademir Menezes.

209

Gols Heleno marcou no Botafogo em 235 jogos, atrás apenas de Quarentinha (307), Carvalho Leite (261) e Garrincha (243). Na Seleção, foram 18 partidas e 13 gols

Gilda!

Em meados de 1947, estreava nos cinemas brasileiros Gilda, dirigido por Charles Vidor e estrelado por Rita Hayworth. “Nunca houve uma mulher como Gilda”, frase promocional do filme, resumia a personalidade da femme fatale geniosa e temperamental, que fazia de tudo para conseguir seus objetivos. Os rivais não perdoavam: por onde Heleno passava, o grito de “Gilda! Gilda!” o tirava do sério.

Eldorado

Em 1948, o governo colombiano apostou que o futebol poderia acalmar os ânimos do povo, revoltado com o assassinato do líder liberal Jorge Gaitán. Foi criada a Dymaior, liga não reconhecida pela Fifa, sem contratos e oferecendo salários milionários. Desembarcaram no Eldorado os astros argentinos Di Stéfano, Nestor Rossi e Adolfo Pedernera e brasileiros como Heleno de Freitas, Tim e Gérson dos Santos. A Liga Pirata durou até 1954.