O único filho só soube na escola de quem era herdeiro. Adolescente, conheceu a terra do pai e ficou impressionado com o quanto o artilheiro era querido na cidade mineira
Publicação:
05/02/2012 08:43
Atualização:
05/02/2012 08:49
Renan Damasceno - Estado de Minas Fotos de Alexandre Guzanshe Enviados especiais a Barbacena, Rio e São João Nepomuceno
Luiz Eduardo de Freitas, de 62 anos, nunca soube o que é amor paterno. A mãe, Ilma, depois de se separar de Heleno com pouco mais de três anos de união, casou-se com João Emídio Resende da Costa, sobrinho do ex-governador mineiro Israel Pinheiro. O padrasto não permitia qualquer menção ao nome do ex-jogador e sempre matriculava Luiz Eduardo em escolas onde não se praticava o futebol. Quando tomou ciência de quem era filho, o garoto passou a perguntar aos outros se conheciam o centroavante do Botafogo. Teve um choque quando um taxista lhe respondeu: “Qual? Aquele que morreu maluco”?
“Esse negócio de filho do Heleno sempre me machucou muito, pelo que eu passei, ser afastado do pai... Eu deixei de ser Luiz Eduardo para ser filho do Heleno. Os garotos na escola podiam falar ‘papai’ e eu nunca tive isso. Você sente saudade de uma coisa que nunca teve. É um sofrimento muito grande, não é legal, não”, comentou.
Pai de cinco filhas – Camila, Bianca, Joanna, Danuza e Mariah –, Luiz Eduardo mora no Leblon e torce pelo Fluminense. Separado da única mulher, trabalha como corretor de imóveis e gosta de passar o tempo com o bisneto mais novo, Matheus Amado Pimenta D’Aguiar, de 3 anos, o único homem depois de cinco filhas e três netas.
O filho de Heleno se lembra pouco do pai. Nascido em 1949, ano em que Heleno voltava ao futebol brasileiro, teve o último contato com ele em Barranquilla, em 1951. “Minha mãe estava em Chicago, junto com meus avós maternos, e passamos pela Colômbia. Tinha pouco mais de 2 anos, e ainda estão na minha cabeça os gritos de ‘arriba, arriba’, talvez em algum jogo em que estava. Talvez seja minha única memória bem distante da glória do meu pai.”
Luiz Eduardo conheceu São João Nepomuceno aos 14 anos e ficou impressionado com o quanto Heleno era querido ali. “Fui recebido na cidade e levado para jogar uma pelada. No primeiro passe que recebi, eu me enrolei todo e perdi a bola. Alguns gritavam: ‘É mentira! Esse perna de pau aí não é filho do Heleno’.”
Se não era bom das pernas como o pai, tem certeza de que o bisneto Matheus será. “Vai ser o camisa 9 da Copa de 2026, pode anotar”, brinca ao abraçar o menino em frente ao Posto 4 de Copacabana, onde Heleno começou. “Ele me dá um abraço tão gostoso! É como se fosse eu e eu fosse o Heleno.”
Matheus ainda não sabe que o trisavô foi um dos maiores ídolos do futebol do país. Ao ser indagado sobre quem Heleno era, responde: “Campeão”.
A CAMPEÃ E O ESPELHO
Revelada no vôlei do Mangueira, Helenize de Freitas, de 67 anos, não demorou para chamar a atenção dos clubes da capital. Chegou ao Minas em 1966, aos 20 anos, e no ano seguinte se transferiu para o Mackenzie, que defendeu por três anos. Nesse período, foi convocada para a Seleção Brasileira e disputou os Jogos Pan-Americanos de Winnipeg’1967, Cali’1971 e Cidade do México’1975.
Filha de Heraldo, Helenize conviveu com o tio Heleno entre 1951 e 1954, ainda criança. “Ele chegava com aqueles carros grandes, parava a cidade. Ia direto para o Bar Canarinho, do Esteves, para comer caçarola, doce de que gostava muito. Depois, já morando aqui em casa, lembro-me de uma mala dura, cheia de quinquilharias. Coleção de moeda, nota, caneta, foto, recortes com que a gente brincava... Mas não podia descuidar: uma vez ele pegou uma moto e desceu de braços abertos a ladeira da matriz.”
No início da carreira, Helenize foi muito comparada no talento ao tio, de quem nunca escondeu paixão e admiração. Pouco depois de conquistar o título do Sul-Americano de Caracas’1969, parou em frente ao espelho, penteou o cabelo para trás bem rente e disse, com lágrima nos olhos: “Viu? Você não quis ser campeão com a Seleção Brasileira, mas eu fui”, como se estivesse repreendendo Heleno.
Nas telas e nas livrarias
Está previsto para 23 de março o lançamento de Heleno, o príncipe maldito, filme do diretor José Henrique Fonseca (de O Homem do Ano e O Matador), exibido pela primeira vez no Festival de Toronto, em setembro do ano passado. O craque alvinegro é interpretado por Rodrigo Santoro, vencedor do prêmio de melhor ator no Festival de Cinema Latino-Americano de Havana, em dezembro.
No filme, o diretor relembra a atmosfera dos anos 1940, usando fotografia em preto e branco que evoca os clássicos filmes de Hollywood. No elenco, além de Santoro, estão Alinne Moraes, no papel de Ilma, e Angie Cepeda, que vive Diamantina, uma vedete amante do jogador no auge da carreira. Uma semana antes, as livrarias do país recebem a segunda edição do livro Nunca houve um homem como Heleno (Editora Jorge Zahar, R$ 44), do jornalista Marcos Eduardo Neves. A biografia, lançada em 2006, não terá adição de informações, mas conta com novo projeto gráfico e fotos inéditas.