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| R. Teixeira estava na CBF desde 1989 |
O novo presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), José Maria Marin, deixou claro em sua primeira entrevista coletiva como mandatário do futebol brasileiro, na manhã de ontem, no Rio: não pretende fazer nenhuma mudança drástica no comando da entidade até 2015, data em que o atual mandato termina.
Em vez de rebater as inúmeras críticas à era Ricardo Teixeira, fez questão de enaltecer a administração anterior. “Preciso dar continuidade a esse estupendo trabalho que Ricardo realizou, a essa administração moderna. Insisti para que todos os diretores continuassem, porque precisamos da experiência deles para que a CBF permaneça na trilha do sucesso e da boa administração. Quem é da confiança do Teixeira é da minha confiança.”
Marin também assumirá o lugar de Teixeira no comando do Comitê Organizador da Copa, entidade que tem como integrante o ex-atacante Ronaldo, por ele confundido com outro astro da bola durante o anúncio na sede da CBF, na Barra da Tijuca. “Vou assumir o COL ao lado de um grande ex-jogador, Romário.” Logo em seguida, ao perceber a gafe, lembrou-se do nome do Fenômeno.
Teixeira nem compareceu à CBF, limitando-se a enviar a carta de renúncia para ser lida por Marin. Este herda o cargo por ser o mais idoso dos cinco vice-presidentes da CBF. O agora ex-presidente havia pedido licença médica na quinta-feira, sem especificar por quanto tempo. O ex-governador paulista estava desde então na presidência. Com a renúncia de Teixeira, todos os diretores da CBF, entre eles o ex-presidente do Corinthians Andrés Sánchez, puseram o cargo à disposição. Foram imediatamente reconduzidos pelo sucessor.
RACHA Embora tenha apoio interno para dar continuidade ao trabalho do antecessor, Marin terá de bater de frente com o posicionamento divergente de parte dos 27 presidentes das federações estaduais. Sete deles não comparecem à CBF.
Havia uma sugestão para que se estabelecesse um rodízio entre os vices durante a licença do antigo titular. “Não há nova administração, não existe novo projeto. O que existe é uma continuidade de um trabalho que vem sendo benfeito. Tive uma conversa com meus vices e vamos procurar aliar a disposição da juventude à experiência do mais idoso, que sou eu”, disse Marin.
Rolos marcantesManobras de bastidores, licenças oportunas, convocações para depor em CPIs. A vida do cartola não foi tão fácil nesses 23 anos, embora ele tenha escapado até agora de todos os escândalos. Menos o último
ReeleiçõesAntecipou de janeiro de 1992 para julho de 1991 a eleição para a presidência da CBF, evitando que os clubes participassem do pleito, como previa a Lei Zico. Em 1995, driblou a mesma lei e, apoiado no estatuto da entidade, emplacou nova gestão contando com votos somente dos clubes da Série A, estendendo o período de mandato para sete anos. Ultimamente, cumpria o quinto mandato.
Clube dos 13Teixeira tornou-se inimigo público de Fábio Koff ao apoiar no ano passado a candidatura de Kléber Leite, ex-presidente do Flamengo, à presidência do Clube dos 13. Aliou-se ao Corinthians, peça-chave na negociação dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro, para enfraquecer a entidade.
Voo da muambaAo retornar do Mundial dos Estados Unidos’1994, foi acusado pelo Ministério Público Federal de ter transportado ilegalmente um sistema de refrigeração para sua choperia no Rio, no valor de US$ 45 mil da época. Ele teria declarado apenas a compra de uma sela e uma geladeira de plástico não elétrica. A Seleção Brasileira, tetracampeã mundial, trouxe dos EUA 17 toneladas de bagagem. Em 2008, Teixeira foi condenado a pagar à União R$ 2.359. Em consequência do episódio, o então secretário da Receita, o advogado tributarista Osíris Lopes Filho, pediu exoneração do cargo, alegando não compactuar com "aquele crime de famosos".
CPIEm 2000 e 2001, foi alvo da CPI do Futebol, instalada no Senado, e da CPI da Nike, na Câmara dos Deputados. No relatório final dos senadores, o cartola foi acusado de crimes de lavagem de dinheiro, sonegação de impostos, apropriação indébita e evasão de divisas. Mas se livrou da punição de 10 anos de prisão.
ConquistasEm quase um quarto de século no comando da CBF, Ricardo Teixeira gosta de se vangloriar dos títulos do futebol brasileiro em seu período. De fato, nas várias categorias, a Seleção Brasileira conquistou inúmeras taças, embora o cartola não tenha colaborado com um mísero gol sequer.
Seleção PrincipalCopas do Mundo dos Estados Unidos’1994 e Japão e Coreia do Sul’2002
Copas das Confederações da Arábia Saudita’1997, Alemanha’2005 e África do Sul’2009
Copas América do Brasil’1989, Bolívia’1997, Paraguai’1999, Peru’2004 e Venezuela’2007
Seleção FemininaDe certa forma, profissionalizou o futebol feminino do Brasil, adotando procedimentos de preparação para os principais torneios do mundo semelhantes aos do masculino. Hoje, as mulheres passam por períodos de treinamentos específicos na Granja Comari e fazem amistosos antes das principais competições. Têm os mesmos patrocinadores dos homens.
Seleções de baseMundiais Sub-20 1993, 2003 e 2011; Sul-Americanos 1991, 1992, 1995, 2001, 2007, 2009 e 2011
Mundiais Sub-17 1997, 1999 e 2003; Sul-Americanos 1991, 1995, 1997, 1999, 2001, 2005, 2007, 2009 e 2011
Sul-Americanos Sub-15 2005, 2007 e 2011
Copa Internacional do Mediterrâneo Sub-18 2011
Copa Sendai Sub-19 2003, 2005, 2006, 2008, 2009 e 2010
OS DESAFETOSO fascínio pelo poder exercido por Ricardo Teixeira nos 23 anos à frente do futebol brasileiro faz com que seus desafetos de ontem se tornem aliados de hoje. O caminho inverso é mais raro. Em determinados momentos, Pelé, Ronaldo, Alexandre Kalil, Rede Globo, entre outros, demonstraram ser contrários à administração do dirigente, mas bastaram algumas concessões ou acordos para que a opinião sobre o mandatário do futebol brasileiro se modificasse.
Dilma RousseffDiferentemente do antecessor Lula, a presidente da República quer distância das irregularidades cometidas por Teixeira e vem sistematicamente lhe negando audiência. Para complicar, nomeou Pelé embaixador honorário da Copa do Mundo’2014
RomárioEleito deputado federal, o Baixinho passou a ser o porta-voz das críticas a Teixeira, principalmente quanto à organização da Copa de 2014. Chegou a se reunir com o presidente da Fifa, Joseph Blatter, em Zurique, para tratar do afastamento do dirigente brasileiro e das decisões relativas ao Mundial.
Joseph BlatterOs dois cartolas entraram em rota de colisão. Primeiro, Teixeira teria apoiado a candidatura do catariano Mohamed Bin Hamman à presidência da Fifa. Reeleito, Blatter passou a ameaçar divulgar detalhes sobre o escândalo da ISL, que teria pago propina ao brasileiro.
RonaldoTeixeira é apontado como o principal responsável pela ausência de Ronaldo da Seleção Brasileira desde a Copa de 2006. O ex-jogador e o dirigente passaram bom tempo às turras, mas depois do jogo de despedida do astro, em junho do ano passado, voltaram a se entender e hoje o ídolo faz parte do Comitê Organizador Local.
Alexandre KalilQuando era presidente do Conselho Deliberativo do Atlético, no início dos anos 1990, Kalil fez várias críticas à CBF e a seu presidente. Atleticano, Teixeira chamou o já presidente do Galo, em março de 2010, para reunião na sede da entidade, e foi selada a paz. "Acertamos que o Atlético tem de ser inserido com carinho dentro da CBF. O que passou, passou", explicou Kalil.
Fábio KoffPara impedir a criação de uma liga independente, Teixeira lançou a candidatura de Kléber Leite à presidência do Clube dos 13. Koff acusou o presidente da CBF de comprar votos, mas acabou reeleito. A entidade, no entanto, implodiu com a renovação do contrato dos direitos de transmissão do Brasileiro no ano passado.
Juvenal JuvêncioO presidente do São Paulo teve atritos com Teixeira por causa da taça das bolinhas e da exclusão do Morumbi da Copa de 2014. Na última eleição do Clube dos 13, em 2010, Juvenal se recusou a votar em Kleber Leite, indicado pelo presidente da CBF, e ainda foi vice na chapa de Fábio Koff.
ImprensaTeixeira nunca teve boa relação com a imprensa, principalmente os órgãos que publicam denúncias contra ele. E os ameaçou com retaliações na Copa de 2014, inclusive não liberando credenciais.
Rede GloboAté a emissora parceira nos contratos de transmissão dos principais campeonatos de futebol do país e dos jogos da Seleção Brasileira teve seu momento de atrito com Teixeira. Em agosto de 2001, o Globo repórter divulgou que o cartola tinha propriedades não declaradas, como uma mansão em Búzios e outra em Miami.
ZicoLíder da candidatura brasileira à sede da Copa de 2006, Zico não se conformou com a desistência do país em 2000. Na ocasião, disse que não trabalharia mais com Teixeira, que o demitiu por telefone. No entanto, foi convidado e aceitou participar do sorteio das Eliminatórias da Copa de 2014, no Rio, em julho do ano passado.
Aldo Rebelo e Sílvio TorresO deputado federal Aldo Rebelo, hoje ministro do Esporte, presidiu a CPI CBF-Nike, em 2000, que apontou várias irregularidades cometidas por Teixeira. Sílvio Torres foi o relator daquela comissão, que detonou as investigações sobre a administração da CBF.
Emerson LeãoO treinador é desafeto declarado de Teixeira desde que foi demitido no Aeroporto de Narita, no Japão, depois da péssima campanha da Seleção Brasileira na Copa das Confederações, em 2001.
Os 23 anos de Teixeira na CBF
1989
Chega à presidência da CBF depois de derrotar na eleição o vice-presidente da entidade, Nabi Abi Chedid. Vence com o apoio do sogro e então presidente da Fifa, João Havelange.
1990 - 1991
Na primeira Copa de Teixeira, na Itália, o Brasil cai nas oitavas de final diante da Argentina.
Antecipa as eleições da CBF para evitar a participação dos clubes – como previa a Lei Zico – e chega ao segundo mandato já sob polêmica. Tomaria posse no ano seguinte.
1994
O Brasil vence a Copa do Mundo nos Estados Unidos, 24 anos depois do tri no México. Depois da Copa, Teixeira é acusado de importar irregularmente equipamentos para a choperia El Turf, de sua propriedade, no que ficou conhecido como o "voo da muamba".
1995
Ignora a Lei Zico pela segunda vez e consegue o terceiro mandato apenas com o voto dos clubes da Série A. Estende o mandato para sete anos.
1996
A CBF assina contrato de US$ 160 milhões com a Nike. Mesmo assim, a entidade dá prejuízo e toma uma série de empréstimos, pagando juros acima dos do mercado.
1998
O Brasil chega à final da Copa da França, mas perde por 3 a 0 do país anfitrião. Os contratos da CBF começam a ser investigados no Congresso Nacional.
2000
Presta depoimento de cinco horas na CPI do Futebol, no Senado, para explicar os déficits anuais da CBF. Tem os sigilos bancário e fiscal quebrados. No relatório final, é acusado de lavagem de dinheiro, sonegação de impostos, apropriação indébita e evasão de divisas, mas acaba inocentado.
2001
Presta depoimento na CPI da CBF-Nike, na Câmara dos Deputados. Tem de explicar sobre atividades da CBF e de suas empresas. É acusado pelo deputado Aldo Rebelo (hoje ministro do Esporte) de escolher o antes desafeto Pelé como sucessor para enfraquecer o trabalho das CPIs.
2002
O Brasil chega ao quinto título mundial com a conquista na Coreia do Sul e no Japão. O dirigente obtém na Justiça liminar que proíbe a impressão e a distribuição do livro CBF-Nike, dos deputados Sílvio Torres e Aldo Rebelo, que relata as investigações que devassaram seus negócios.
2003
Chega ao quarto mandato consecutivo na CBF.
2006
Na Copa da Alemanha, o Brasil cai nas quartas de final e os jogadores são alvo de críticas do dirigente, que ataca a condição física dos astros. As confederações que formam a Conmebol votam de forma unânime pela candidatura única do Brasil a sede da Copa do Mundo de 2014.
2007
Mobiliza a bancada da bola para impedir a instauração da CPI do Corinthians/MSI, com o argumento de que poderia atrapalhar a candidatura do Brasil à Copa de 2014. A Fifa confirma o país como sede do evento. Teixeira consegue o quinto mandato na CBF e se garante na entidade até 2015.
2010
A Seleção Brasileira cai nas quartas de final da Copa da África do Sul. Em programa da rede britânica BBC – e depois em livro –, o jornalista escocês Andrew Jennings acusa Teixeira de ter recebido propina da falida empresa de marketing esportivo ISL. O dirigente (assim como o ex-sogro, Havelange) teria pago o dinheiro de volta a um tribunal suíço com a condição de não ter o nome revelado no inquérito.
2011
Tenta emplacar Kléber Leite na eleição do Clube dos 13, mas sai derrotado. Como vingança, articula a dissolução do grupo durante a negociação dos direitos televisivos do Campeonato Brasileiro. Sofre pressão na organização da Copa do Mundo com a chegada de Dilma Rousseff à presidência da República. Ao contrário do antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, ela fez questão de se distanciar do dirigente e desafia o cartola ao nomear Pelé "embaixador honorário" do Brasil para a Copa de 2014.
2012
Malvisto na presidência da CBF e do Comitê Organizador Local (COL), nomeia o ex-atacante Ronaldo para o conselho do órgão como forma de diminuir a pressão sobre si. Com o nome envolvido na investigação do superfaturamento na organização do amistoso Brasil x Portugal, em 2008, no Bezerrão (DF), sofre pressão cada vez maior para deixar a entidade. E a saída fica inevitável. Ele se afasta aos poucos. Primeiramente, pede licença por tempo indeterminado. Por fim, tem a renúncia anunciada pelo substituto, José Maria Marin.