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Não vale tudo

MMA se espalha como um vírus

Mixed Martial Arts, ou simplesmente MMA, já virou epidemia e está cada vez mais presente na vida esportiva dos brasileiros

Lucas Fitipaldi - Diario de Pernambuco

Celso Ishigami - Diario de Pernambuco

Publicação:

06/11/2011 08:29

 

Atualização:

06/11/2011 13:18

Divulgação/ UFC
Fenômeno midiático, o MMA se espalhou como um vírus nos últimos anos. Hoje, o público consumidor de pancadaria gera cifras bilionárias. Só a marca do Ultimate Fight Championship (UFC), o maior torneio de lutas do mundo, está avaliada em US$ 2 bilhões. Atentos ao filão, empresários locais se mexem para fisgar o potencial de uma plateia cada vez mais abrangente. Na noite da última terça-feira, aproximadamente 1.500 pessoas compareceram à primeira edição do Night World of Champions, no Chevrolet Hall, o maior evento de MMA (Mixed Martial Arts – Artes Marciais Mistas) já realizado no estado – ao menos em termos de estrutura. O número poderia ter sido o dobro, ou até mais, não fosse a concorrência quase desleal do roteiro festivo da véspera do feriado. Detalhe: o ingresso mais barato custou R$ 70 (sem contar a meia-entrada), um patamar distante dos valores praticados nos antigos eventos de vale-tudo promovidos na capital pernambucana, cujo apelo popular era inegável.

O leque de consumidores é amplo: empresários, advogados, comerciantes, estudantes, modelos, personal trainners, engenheiros civis, professores e por aí vai. Muitos homens, cada vez mais mulheres. Gente como Seu José Pereira da Silva, comerciante de Camocim de São Félix, agreste do estado, que atravessou 200 quilômetros de estrada para assistir pela primeira vez, in loco, aos combates. Ou o casal de namorados Camila Vilabeba e Eduardo Felipe, ambos de 18 anos. Ela, assumidamente viciada em UFC.

Entre curiosos e fãs de carteirinha, a reportagem do Superesportes colheu relatos dos mais variados. Da professora de kickboxing Maria Rita Jatobá ao personal trainner Pedro Domingos. Da ex-miss Pernambuco Fabiana Medeiros, namorada do empresário João Lima, à advogada Marcela Belforte. Do estudante Davi Vilella à família Rufilo, representada por avô, pai e neto. Todos, confortavelmente assentados, durante quase três horas de lutas.

Se o nível técnico dos combates em Pernambuco ainda deixa muito a desejar, ao menos fora do ringue o profissionalismo pediu passagem. Já não sevê quebra-quebra nesse tipo de evento. Cadeiras voando e brigas nas arquibancadas são cenas do passado. A preocupação agora é outra. In loco, cada pancada ganha um upgrade, a começar pelos estalos dos socos e chutes. A televisão amortece o impacto visual.

Alguns marinheiros de primeira viagem não conseguem esconder a aflição. Xará de um dos ícones da modalidade, a professora Marcela Belfort cobriu os olhos em vários momentos. Não tem jeito, a agressividade faz parte do show.

No último combate da noite, ajoelhado no centro do ringue, o sangue espirrando no rosto, o lutador Ivo Rodrigo recebeu um beijo na testa logo após o árbitro encerrar a luta. O gesto singelo partiu do adversário que acabara de golpeá-lo impiedosamente. Uma cena contraditória por natureza, mas envolta de significado. Ao beijar o oponente naquele estado, o português Rafael Silva preocupou-se em fortalecer a mensagem universal do MMA. Não brigue, lute. Diz o bordão. Esse entendimento por parte da sociedade talvez seja um dos grandes responsáveis pela proliferação do vírus. Estado de epidemia decretado, o MMA se alastra.

Depoimentos

O MMA é diferente do antigo vale-tudo por ser muito mais cuidadoso com o atleta.Acho que as pessoas já não aceitavam tanto sangue. Isso deve ter contribuído para que a modalidade ganhasse esse perfil feminino. Antigamente, eu até gostava, mas não tinha coragem de ir aos eventos de vale-tudo. Saía muita briga, quebra-quebra”
Maria Rita Jatobá, 35, professora de Kickboxing

É sagrado: todo sábado é dia de assistir ao UFC na tevê. Isso começou há uns cinco anos, mas sempre gostei de lutas. Assisti boxe a minha vida inteira. Quantas vezes entrei pela madrugada acompanhando os combates de Mike Tyson e outras feras. Mas ao vivo é muito melhor. Dá pra sentir o clima, a adrenalina. Os eventos que tiverem por aqui eu vou”
José Pereira da Silva, 56, comerciante

Comigo não tem essa de apreciar técnica. Quero ver muita porrada e o sangue descer.”
Alexandre Rufilo, 59, empresário do ramo de construção civil

Sempre gostei de assistir pela televisão. Muitas vezes cheguei das festas e passei o resto da madrugada vidrada. Até comecei a fazer kickboxing. Estou tentando convencer minhas amigas a gostarem também. O mais bonito pra mim é o confronto técnico. Fico apaixonada sempre que o Anderson Silva baixa a guarda.É muita coragem”
Camila Vilabeba, 18, estudante

Sempre gostei de lutas. Acompanho o UFC desde os primórdios, no começo da década de 1990, quando Royce Gracie era o monstro. Já estive presente em vários eventos. A adrenalina é outra, não tem nada a ver com a televisão. Nada como sentir de perto. O que mais gosto é de observar o embate entre as artes marciais. Ver a técnica, o estilo de cada lutador. Não acho que seja apenas uma moda, algo passageiro. Nos Estados Unidos o MMA tem crescido mais que qualquer outra modalidade. Em Portugal também já faz muito sucesso. Tenho impressão de que veio pra ficar”
Pedro Domingos, 33, personal
trainner

A guerra seduz. Está na natureza do ser humano. O MMA é uma agressividade com disciplina. Não se trata de uma briga de rua. Luta tem que ser vista como esporte,porque existem muitas regras. Tudo se limita ao ringue. Fora, o clima tem que ser de paz. Seja entre os lutadores ou em meio ao público”
Téo Gouveia, 26, advogado

Confesso que a minha recepção não foi das melhores. Vi muito sangue logo na primeira luta. Não sei se terei vontade de voltar outra vez”
Marcela Belfort, 25, professora

O coração veio na boca quando o cara desmaiou. Mas quem vem assistir de perto quer emoção mesmo. Desde a época do Coliseu, na Roma antiga, as pessoas gostam de ver sangue. É algo entranhado no ser humano”
João Lima, 26, empresário

Gostar, nem gosto tanto. Mas uma coisa tem que ser dita: na televisão parece videogame, de perto você vê que o negócio é real. Apesar de ainda ser um ambiente predominantemente masculino, me senti à vontade. Vi várias mulheres presentes”
Fabiana Medeiros, 28, modelo e ex-miss pernambuco 2009

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