Na última sexta-feira, Cesar Cielo e mais três nadadores receberam uma advertência da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA) pelo uso de furosemida. Eles alegaram que foram vítimas de uma contaminação cruzada durante o processo de manipulação de um suplemento à base de café. O Correio ouviu ontem seis especialistas no assunto e todos foram unânimes em dizer que é improvável que tenha ocorrido uma falha desse tipo. E mais que isso: declararam que, mesmo se tivesse ocorrido tal erro durante a produção das cápsulas, a quantidade do produto proibido, de tão ínfima, jamais seria detectada no exame de urina comumente utilizado no teste antidoping.
Apesar de ter sido apontada como a culpada, a farmácia Anna Terra, onde foram manipulados os suplementos que, segundo o Ladetec, continham a furosemida, diz apenas ter atestado que as contaminações cruzadas são possíveis. No mercado há duas décadas, o estabelecimento que fica em Santa Bárbara D’Oeste (SP), cidade natal de Cielo, é uma farmácia tradicional e que não tem histórico de erros, segundo a Associação Nacional de Farmácias de Manipulação. A reportagem tentou contato com a Anna Terra, sem sucesso.
Respaldado por 35 anos de carreira como farmacêutico e diretor da maior farmácia de manipulação do Distrito Federal, a Farmacotécnica, Rogério Tokarski adianta que nunca viu um caso de contaminação cruzada. “Seguimos normas e obedecemos procedimentos extremamente rigorosos na manipulação de medicamentos. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) vistoria constantemente os estabelecimentos e é muito rígida. Não acredito que isso que o Cielo alega, de ter havido contaminação cruzada, exista. Em 35 anos de experiência eu não conheço um caso de contaminação cruzada”, atesta.
Além do diretor da Farmacotécnica, os farmacêuticos João Paulo Pereira Passos, Leandra Sá de Lima, de Brasília, e Deyse Moura, de Bauru (SP), também ouvidos pela reportagem, disseram desconhecer casos de contaminação cruzada, como alegam os atletas da natação. Um quinto farmacêutico, com mais de 20 anos de experiência no mercado em Brasília e que atende atletas de alto rendimento, mas preferiu não se identificar, foi taxativo ao afirmar que nunca presenciou um caso assim.
PHD em fisiologia em Moscou e membro permanente do Comitê Olímpico Internacional (COI), o cubano José Blanco Herrera disse que prefere esperar a decisão da Federação Internacional de Natação, a Fina, para emitir uma opinião sobre o caso. Herrera, que já trabalhou no controle de doping em cino Olimpíadas, confirma, entretanto, o que os farmacêuticos dizem: “É difícil fazer um comentário quando não se conhece os elementos. Mas eu posso afirmar que não é comum uma contaminação cruzada acontecer. É uma circunstância completamente incomum, não é frequente, por isso tem que ser julgado pela Fina”, disse, em entrevista ao Correio.
Veja processo de produçãoDifícil detectar O que mais complica as explicações dadas pelos nadadores flagrados no exame antidoping do Troféu Maria Lenk é uma questão puramente matemática. A tal contaminação cruzada sugere uma quantidade ínfima de uma substância que acidentalmente caiu em outra, mas para que a furosemida, a droga em questão, seja detectada na urina, é necessária uma ingestão consideravelmente maior.
“Para identificar a presença de furosemida na urina, ela teria que ter sido usada em uma quantidade muito grande, para o organismo eliminá-la. Caso contrário, não sairia na urina”, explica Leandra Sá de Lima, assessora farmacêutica da Farmacotécnica. “Em caso de manipulação cruzada, a quantidade de furosemida nas cápsulas seria tão mínima, apenas um resíduo. Não seria possível detectar em um exame de urina”, ratifica o responsável pelo controle de qualidade da farmácia, João Paulo Pereira Passos.
Um farmacêutico com 24 anos de experiência no mercado de Brasília e que atende atletas de alto rendimento usou uma definição curiosa para referir-se a esse tipo de contaminação: mais lenda do que verade. Para o profissional, que só concordou em conversar com o Correio caso não fosse identificado, se a substância foi detectada no exame só há uma explicação: ela foi colocada dentro das cápsulas, com ou sem o conhecimento dos nadadores.
A farmacêutica Deyse Moura, proprietária de um estabelecimento no interior de São Paulo há 18 anos, esclarece que não é provável que a furosemida, ou qualquer outra substância em caso de contaminação cruzada, entre na cápsula. Ela diz que a contaminação acontece no revestimento externo do produto. “Muito difícil isso ocorrer, principalmente hoje em dia, com tantos controles. Ainda mais se tratando de uma medicação de Cesar Cielo”, acredita.
A Associação Nacional de Farmácias de Manipulação comunicou que não vai se manifestar formalmente sobre o caso e que não tem dados sobre ocorrências de contaminação cruzada no Brasil. A assessoria da instituição ressaltou apenas que eles estão acompanhando o desenrolar do caso e que as farmácias seguem uma série de procedimentos para que não haja falhas.
Recluso em seu "nada a declarar"As palavras lidas pelo campeão mundial e olímpico Cesar Cielo no dia da confirmação de contaminação de amostra coletada durante o Troféu Maria Lenk foram as últimas dadas pelo nadador desde então, e, aparentemente, assim devem permanecer. O atleta tem evitado a imprensa ou aparições em público e ultimamente só consegue ser encontrado em raros flagras de jornalistas que o seguem. Ontem, o nadador foi visto treinando na academia Reebok Club, no bairro da Vila Olímpia, em São Paulo, mudando o seu local regular de treinos, o Centro Olímpico do Ibirapuera.
Outro indício de que o silêncio do campeão deve durar mais do que se imagina são as negativas aos pedidos de entrevista, a mais recente delas feita pelo programa Fantástico, da TV Globo, segundo informou ao jornal Folha de S. Paulo o treinador do atleta, Alberto Pinto.
Mesmo caso, outra sentençaA nadadora Daynara de Paula também foi flagrada no ano passado pelo uso de furosemida, encontrada em uma cápsula de café. A atleta tentou se defender com os mesmos argumentos de Cesar Cielo e seus companheiros, alegando que usou um suplemento contaminado produzido em uma farmácia de manipulação. Mesmo assim, recebeu seis meses de punição. O Painel de Doping informou que “embora a atleta tenha provado sua boa vontade, ela não fez questionamentos suficientes sobre o suplemento”.
O Correio entrou em contato com a nadadora do Minas Tênis Clube ontem, mas ela não quis detalhar como suas cápsulas de cafeína foram contaminadas por uma farmácia. “ Se eu falar, vai voltar à tona coisas que eu não quero mais lembrar nem falar.”
Tales desiste do MundialApós herdar o lugar de Henrique Barbosa, um dos quatro flagrados no antidoping, para competir nos 200m peito no Mundial de Xangai, Tales Cerdeira resolveu abrir mão de sua vaga. O nadador pediu dispensa à CBDA e alegou que vai disputar apenas os Jogos Mundiais Militares e a Universíade. Com a decisão, apenas Thiago Pereira representará o Brasil na prova da China.
Farmácia na mira da prefeituraApontada como o local que produziu as cápsulas de cafeína contaminadas com furosemida, a farmácia de manipulação Anna Terra foi inspecionada na última segunda-feira pelo Departamento de Vigilância Sanitária de Santa Bárbara D’Oeste. A ação já fazia parte do cronograma do órgão, mas com o caso de doping de Cielo e os outros três nadadores, os inspetores teriam aproveitado para colher mais alguns dados.