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Por onde anda

Bosco: um ídolo que provoca boas e más lembranças no torcedor do Sport

Goleiro tem currículo vitorioso pelo Sport, mas episódio quando defendia o São Paulo, em 2007, provocou a ira da torcida rubro-negra, abalando seu prestígio

postado em 14/12/2013 10:00 / atualizado em 14/12/2013 01:16

Alexandre Barbosa /Diario de Pernambuco

Alexandre Barbosa/DP/D.A. Press

O sentimento do torcedor do Sport com o ex-goleiro Bosco é um misto de amor e ódio. Poderia ser diferente, afinal a história dele com a camisa rubro-negra é extremamente vitoriosa. Um episódio mudou tudo. Morumbi, 26 de julho de 2007. Na vitória por 3 a 1 do São Paulo sobre o Leão, Bosco comemorou com ênfase cada um dos três gols marcados. Os rubro-negros encararam o ato como um revanchismo, já que ele havia deixado o clube três anos antes de maneira conturbada.

Bosco admite que aquela comemoração abalou o seu prestígio com a torcida do Sport. "Sei que aquilo pegou mal". Até tenta se justificar. Disse que sempre comemorou os gols com o São Paulo daquela maneira e que ainda havia uma ligação de amizade com o meia Souza, autor do segundo gol. “Ele era meu amigo pessoal e vinha numa fase meio complicada. Então comemorei bastante, sim”. Por meio do irmão, ficou sabendo da repercussão negativa. “Depois daquilo, enfrentei o Sport outras vezes e não comemorei mais”.

Em 2009, num desses retornos, uma partida sem graça, que terminou 0 a 0 entre Sport e São Paulo, marcou a última vez de Bosco como jogador na Ilha do Retiro. Foram pouco mais de cinco anos para que Bosco pisasse novamente no estádio rubro-negro. Na última sexta-feira, foi difícil disfarçar a emoção ao percorrer com os olhos as arquibancadas vazias. Na mente dele, elas estavam lotadas. Foi possível "ouvir" os fogos que estouravam atrás da geral do placar. O caminho do túnel até o gramado foi refeito. "É uma sensação diferente de vir jogar", revelou o ex-goleiro, ao tentar descrever o que sentia naquele momento. "Estar aqui traz muita coisa na memória".

O início de tudo

Alexandre Barbosa/DP/D.A. Press
A passagem de Bosco pelo Sport é dividida em duas partes. A primeira começa em 1993, há vinte anos, quando, aos 17 anos, ele deixou o Vitória-PE, onde deu os primeiros passos no futebol como aspirante, para defender os juniores do Leão. "Minha filha tinha acabado de nascer, então decidi deixar o futebol. Numa conversa do meu pai com Bento (antigo diretor do Sport) aqui na Ilha, ele perguntou sobre mim. Meu pai disse que eu tinha largado. Bento não quis saber. Disse que na segunda-feira eu me apresentava no Sport", lembrou.

Bosco defendeu o Sport de 1993 a 2000. Foi incontestavelmente vitorioso. Conquistou seis títulos pernambucanos. Defendendo o Leão, foi convocado para a Seleção Brasileira três vezes, por três treinadores diferentes. Entre esses anos, fez parte do que considera alguns dos melhores times da história do clube, o de 1998 e o de 2000. "Para mim, recentemente, existem três times do Sport marcantes. O de 1998, 2000 e 2008. Tive a felicidade de fazer parte de dois", afirmou. Entre essas equipes, uma coisa em comum: tinha como principal arma a Ilha do Retiro. "Eram times que você sabia que iam ganhar aqui dentro, não importava o adversário. Qualquer coisa diferente disso era acidente de percurso".

No final de 2000, em plena forma, Bosco teve o mesmo destino que muitos jogadores da sua geração no Sport. Foi vendido por R$ 1,7 milhão ao Cruzeiro. Após uma temporada na Raposa, se transferiu para a Portuguesa. O time passou por problemas de atraso salarial e acabou rebaixado para a Série B. Em 2004, ao voltar para o Recife, o goleiro recebeu o convite do Sport. Topou o desafio proposto pelo técnico Hélio dos Anjos, mas encontraria no elenco um goleiro à sua altura: Maizena. Mesmo assim, iniciou a temporada como titular, já que tinha a confiança do treinador.

Nas finais do Pernambucano, Bosco, que tinha ganho uma ação na Justiça para quebrar o vínculo com a Portuguesa, teve sua liminar cassada. Ele não esquece o tempo em que ficou parado: 72 dias. O suficiente para Maizena tomar conta da posição, com méritos, segundo ele próprio. "O velhinho tava pegando tudo!". Mesmo assim, num clássico contra o Náutico, ele ganhou a camisa 1, mas… "No primeiro chute que dei no jogo, senti o músculo. Fiquei parado um tempão de novo".

Bosco só voltou a jogar durante a Série B, mas já não era unanimidade entre a torcida. Num jogo em que ele só se lembra o placar - 1 a 1 - e não o adversário, um rebote no gol sofrido fez a torcida pegar no pé dele. O estopim foi uma derrota que dói até hoje na memória de qualquer torcedor do Sport: 7 a 1 para o Marília. O goleiro foi apontado como um dos culpados. Nereu Pinheiro, técnico na época, não foi capaz de segurá-lo como titular. Ao ser avisado de que iria para o banco, dando lugar a Maizena, contestou.

"Perguntei se eles achavam que eu tinha culpa em algum gol. E eu não tinha! Aceitei a decisão, mas disse que queria procurar um clube. A diretoria autorizou, só disse que não poderia ser da Segunda Divisão", lembrou Bosco. Hélio dos Anjos, porém, fez o convite para o Fortaleza, que estava na Série B. O Sport relutou, mas a insistência do goleiro falou mais alto. "Eles acabaram me liberando. Sei que foi uma saída conturbada. Se falou muita coisa".

Entre as "muitas coisas" que se falaram na saída de Bosco estava um desentendimento com Maizena. Ele nega e garante que o relacionamento entre os dois sempre foi bom. "A gente se dava muito bem. Falavam que eu tinha panelinha com não sei quem. Mas em clube nenhum que passei na carreira eu fiz panelinha. Fiquei triste, sim, com isso tudo", revelou.

Foi o ponto final da história de Bosco no Sport. Mas a carreira do goleiro ainda teria mais capítulos. No Fortaleza, teve o que queria: voltou a jogar, se destacou. Chamou atenção do São Paulo, que já havia se interessado outras vezes. Agora, o acerto foi fechado. No Tricolor Paulista, ele sabia que ficaria na reserva de Rogério Ceni. "Eu sabia, sim. Até minha esposa falou. Mas não poderia perder essa chance. O São Paulo era o time da moda. Eu estava doido para voltar a jogar em uma equipe grande".


A segunda casa

Alexandre Barbosa/DP/D.A. Press
No São Paulo, Bosco trilhou novamente o caminho dos títulos, mesmo que agora fosse coadjuvante. Mas está registrado: tricampeão brasileiro (2006, 2007 e 2008) e campeão mundial de clube (2005). "Ainda tive mais oportunidades do que esperava. E poderia ser até mais. Algumas lesões acabaram me atrapalhando", lamentou o ex-goleiro, que teve uma fratura no rosto e um rompimento de ligamento cruzado do joelho. Esta última sofrida a dois meses do fim do seu contrato com o Tricolor. Renovou por mais seis. Pediu um tempo a mais para poder voltar a treinar e jogar após a recuperação da cirurgia. Não teve.

Ao deixar o São Paulo, em 2011, Bosco tinha 36 anos. Ele se sentia em condições de continuar. "Jogaria mais uns dois anos". Por incrível que pareça, no entanto, faltaram convites. O ex-goleiro garante que não recebeu nenhuma proposta depois que deixou o São Paulo e que isso o fez parar. Na verdade, até surgiu uma, que ele negou. Veio do Santa Cruz. "Não poderia aceitar pela minha ligação com o Sport. Acho que ia colocar abaixo toda minha história (no Sport)", revelou.

A nova vida

Ainda à espera de convites, mas quase conformado com a aposentadoria, entre os investimentos que decidiu fazer, Bosco comprou uma casa em Orlando, nos Estados Unidos. A intenção era utilizar o imóvel para passar as férias. Quando viajou, a ideia era passar dois meses. Está lá até hoje. "É um outro mundo, uma outra vida. Me sinto muito bem lá", contou o ex-goleiro, que vive o exterior com a esposa e os três filhos - duas meninas, de 20 e 16 anos, e um menino, de 15.

Futebol, hoje, na vida de Bosco, só na memória. Atualmente, ele se dedica a tocar um negócio no ramo dos cosméticos que tem com a esposa. Está montando uma fábrica desses produtos nos Estados Unidos. O plano é no próximo ano consolidar a iniciativa. Em paralelo, cultiva a saudade do mundo da bola. "Por incrível que pareça, eu sinto falta. Principalmente, do ambiente. Eu tenho vontade de voltar", admite.

Preparador de goleiros, gerente de futebol. Bosco ainda não sabe em que função se encaixaria. Não seria pelo dinheiro. Como disse, aceitaria um convite só para voltar a viver aquele velho ambiente de descontração. Um convite que poderia vir do Sport. "Quando tudo estiver encaminhado com esse novo negócio, eu volto a pensar no futebol. Não fecho essa porta. Se fosse no Sport, melhor ainda", afirmou.