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Tricampeã mundial, brasileira Karen Jonz fala sobre o mundo do skate

postado em 15/11/2013 11:38 / atualizado em 15/11/2013 11:58

Alexandre Botão /Correio Braziliense

Mary Jane/Divulgação
Se tivesse nascido jogadora de futebol, Karen Jonz, 29, seria uma exceção entre eventuais fenômenos. Tem bela estampa, bons argumentos e pouca paciência para mimimis. Não bastasse, é tricampeã do mundo. E ainda divide bem sua dedicação aos treinos com a vida de atleta “patrocinada”, que requer dose generosa de atenção às marcas que desembolsam para apoiá-la. Acontece que tudo o que ela não quer ser na vida é jogadora de futebol. “Tem um grupo chegando agora no skate, uma facção de skatistas boleiros, que só quer ganhar dinheiro e mais nada. Esses são uns idiotas, bobões, não ajudam em nada o esporte”.

Karen acaba de conquistar seu terceiro título mundial de skate vertical feminino, em San Diego. A vitória só foi anunciada depois de algum suspense. Assim como em qualquer esporte que depende de notas, houve várias contestações quanto às colocações das atletas. “O resultado foi inteiro torto”, sapeca a skatista. “Fiquei em sexto nessa etapa e pensei: ‘Não vou ganhar’. Mas quando saiu a decisão…”.

Jonz desembarcou na última terça-feira, em São Paulo, onde mora. Na mesma noite, conversou com o Correio Braziliense. Explicou as razões da pouca divulgação do esporte, não se incomodou em lamentar a organização dos X-Games no Brasil, este ano, e espinafrou a história de musa: “Eu ralo demais no meu trabalho”.



Sempre houve atletas brasileiros com resultados expressivos nos esportes radicais. Você acha que falta reconhecimento de público ou de mídia?
No Brasil, a galera dá muita importância para título. Tem que ser campeão. Não sei se existe um preconceito. Como o skate não é um esporte tradicional, acaba sendo meio rebelde, e há essa desconfiança. Você vê o futebol, em que o pai vai lá, fica vendo o filho, filmando, vendendo o filho… Os skatistas nunca teriam isso.

Não falta também uma assessoria?
Há um grupo de atletas que está no skate há mais tempo e é mais bem assessorado. Nesse caso, acho que é um pouco culpa nossa também. Se fôssemos mais bem assessorados, poderíamos ter mais material para divulgar e, quem sabe, teríamos mais espaço.

Hoje, é perfeitamente possível viver do skate profissional. No seu caso, quão possível está sendo?
O momento foi em 2007, 2008, mais ou menos, quando a premiação dos X-Games acabou igualada tanto no masculino quanto no feminino. E os prêmios para as meninas melhoraram. Então, eu entrava na competição e pensava: ‘Se eu ganhar esse campeonato, vai render 50 mil dólares, e com essa grana eu vivo o ano inteiro’. E é verdade: eu conseguia pagar as contas, o aluguel, manter meu carro…

Hoje, a Karen vale um jogador de futebol, de vôlei ou de tênis de mesa?
De futebol de botão, eu acho… Falando sério, cada vez mais eu consigo patrocínios mais bacanas, tenho uma linha de tênis com 10 modelos, que eu recebo um percentual da venda, está funcionando, mas não é nada exagerado.

Você começou a praticar skate com 16 anos, idade considerada avançada para o esporte, por assim dizer. Fez diferença, no fim das contas?
Com certeza eu andaria muito mais. Mas isso é teoria. Não sei como seria o apoio, a maturidade, como eu me comportaria ainda sendo criança. Mas, se eu tivesse começado mais cedo, eu provavelmente seria uma atleta melhor.

Os esportes batizados de “radicais” normalmente envolvem um certo risco. Você tem mais títulos ou lesões?
Acho que mais lesões. Mas cada roxo é uma medalha.

Qual foi o título mais difícil?
O ouro de 2008, em Los Angeles (campeã de skate vertical nos X-Games daquele ano). Porque foi um ano em que todas as meninas estavam andando muito bem, e eu, brasileira, competindo fora... E isso faz diferença. Mas eu treinei muito mesmo, só não sabia como estaria em comparação com as outras. E, no fim das contas, cheguei num nível muito alto.

E a lesão mais dolorida?
Tem algumas. Já abri muito o queixo. Já abri umas três ou quatro vezes. E meus ligamentos são frouxos, meu joelho sai do lugar sempre. Quase todos os dias, tem alguma coisa doendo.

Nesse ano, o Brasil sediou uma etapa dos X-Games. Embora você não tenha participado, como viu os jogos?
Eu não estava lá, então vou falar como alguém de fora que só acompanhou pela TV e pela internet. Acho que a mídia acabou babando o ovo demais dos gringos. E não acho que teve a exposição que poderia ter tido. Poderia ter sido bem melhor, era uma oportunidade muito boa para todos ali.

Você tem formação em TV, em design. Sabe tocar piano clássico... Daí para o skate é um salto. Mas também uma ponte para depois da aposentadoria...
Não vou parar de andar. Não vou me aposentar. O Tony Hawk (skatista americano) tem 50 anos e ele não pensa em parar. Eu posso um dia parar de competir, mas sempre há algo para fazer no universo do skate. Posso trabalhar com vídeo, com rampas...

Mesmo em 2013, ainda existe uma associação entre skate e alienação?
A cultura do skate é muito rica. Quem anda de skate está sempre muito antenado com o que acontece no mundo, no país, na sua cidade. Tem uma vocação para a cultura e para os movimentos sociais. O skatista é uma pessoa interessante.

Com exceções?
Tem um grupo chegando agora no skate, uma facção de skatistas boleiros, que só quer ganhar dinheiro e mais nada. Esses são uns idiotas, bobões, não ajudam em nada o esporte.

Como você viu ou viveu as recentes manifestações no Brasil?
No começo, eu achei que ia servir para algo. Depois, percebi que não ia levar a nada. Agora, todo mundo esqueceu, o que é pior.

A história da musa incomoda ou ajuda?
Existe uma relação com as redes sociais que é diferente. Por exemplo: não importa que tipo de foto você coloque no Instagram, acabou de acordar, cara inchada, descabelada… Sempre tem alguém que vai dizer “linda”, “diva”, “musa”. Mas eu dou o maior duro, treino muito, e essa questão (da beleza) é a menos importante. Eu acabo achando engraçado e, de certa forma, tem uma galera que começa a conhecer o trabalho, o esporte, por conta disso.

E proporciona uma base de fãs que provavelmente jamais existiria se não fosse a internet, certo?
É óbvio que você quer ver o que estão falando de você. Eu sou normal. Na maioria das vezes, eu olho, leio e procuro responder. Nem sempre é possível, mas eu respondo as mais interessantes.

Para seguir

Instagram – @karenjonz
Facebook – /karenjonzskateboard
Twitter – @karenjonz