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TÊNIS DE MESA

Aos 19 anos, mesatenista nascido em Ceilândia celebra mudança para Espanha

Luís Anjos supera as dificuldades de um jovem humilde nascido em Ceilândia e vai para Sevilha para um período de testes

postado em 11/01/2019 14:18 / atualizado em 11/01/2019 14:43

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Wallace Martins/Esp. CB/D.A Press
O primeiro treinador recorda em tom bem-humorado a surpresa que sentiu ao ouvir do garoto, então com 8 anos de idade, o desejo de se tornar o “melhor jogador do mundo de tênis de mesa”. O percurso até o topo da concorrida pirâmide ainda é longo e árduo, mas talvez hoje poucos duvidem da possibilidade da façanha. Nascido em Ceilândia, criado pela mãe e pela avó, Luís Anjos embarcou nesta quinta-feira (10/1) para a Espanha, onde cumprirá uma temporada de três meses de testes em Sevilha. Se aprovado, poderá estender o contrato e participar do prestigiado Circuito Europeu, onde estão alguns dos mais célebres atletas do planeta, como o brasileiro Hugo Calderano, atual sexto colocado do ranking mundial.

“Sinto-me muito feliz com esta oportunidade e espero fazer o melhor que posso. Tenho trabalhado duro nos últimos anos e contado com o apoio de pessoas maravilhosas. Minha expectativa é continuar evoluindo no esporte e conquistar títulos importantes representando o Brasil”, diz Luís Anjos, com um sorriso que não lhe cabe no rosto.

Aos 19 anos, exibindo excelente forma física, com 1,77m de altura e 76kg de densa massa muscular, o atleta treina na Associação Pró-Tênis de Mesa de Joaçaba, em Santa Catarina, desde 2014. No clube catarinense, ele recebe R$ 900 mensais, além de alimentação, moradia e infraestrutura para treinar. Ganha ainda R$ 1.800 do Bolsa Atleta Internacional e conta também com alguns patrocinadores. Neste início de temporada na Europa, vai embolsar 600 euros mensais (cerca de R$ 2.550). Os valores parecem irrisórios para quem acompanha o inflacionado mercado do futebol e da elite de outras modalidades, mas representa muito para um jovem que esteve bastante próximo da criminalidade de uma das regiões mais perigosas da periferia de Brasília.

Nas ruas de Ceilândia, Luís Anjos testemunhou a violência alterar drasticamente a vida de amigos e familiares. “Ele poderia ter tomado o mesmo rumo, não fosse o tênis de mesa”, diz a mãe do atleta, Helenice Anjos, 42 anos, desempregada, que tem mais quatro filhos, frutos de dois relacionamentos. “Nada é fácil em nossa vida. Conto com a ajuda da minha mãe para cuidar da família. Ver o Luís evoluir na carreira, fazendo o que mais gosta, realmente me enche de orgulho”, completa.

Helenice tem papel central no desenvolvimento esportivo do filho. Na juventude, ela praticava handebol no Centro de Ensino 24, em Ceilândia. Foi o antigo treinador dela, o professor Adalberto Pietro, que descobriu o talento de Luís. “Aos 6 anos, os olhos dele mal alcançavam a altura da mesa, mas demonstrava grande habilidade. Resolvi apostar nele, pois exibia grande concentração e rápida evolução. Também é uma pessoa humilde, o que ajuda bastante na relação”, conta o treinador.

Quando o universo escolar ficou pequeno para o futuro campeão nacional e sul-americano das categorias de base, Luís Anjos recebeu o apoio de outro importante técnico do tênis de mesa. Na época, o paulista Ernesto Takahara levou o atleta para treinar na AABB e o colocou definitivamente no mundo das competições de alto rendimento.

A fórmula para o sucesso

Wallace Martins/Esp. CB/D.A Press
Foi em parceria com o técnico Ernesto Takahara que o mesatenista Luís Anjos obteve alguns dos melhores resultados da carreira, conquistando títulos da Copa Brasil, do Campeonato Brasileiro, do Sul-Americano e vaga na Seleção nacional. “Ele foi uma criança jogada no mundo que teve de aprender cedo a competir pela sobrevivência. Em algum aspecto, é algo mais importante do que a própria técnica do esporte, pois não pode ser ensinado. Ele não ganhou uma raquete de presente, teve de conquistá-la”, explica Takahara, 43 anos.

O treinador pretendia provar que o investimento em jovens como Luís compensava. Chegou a gastar cerca de R$ 5 mil por mês com o atleta para inseri-lo no circuito. Trocava informações com Adalberto, que ainda mantinha contato com o antigo pupilo em Ceilândia. Desse intercâmbio, foi-se lapidando um promissor competidor.

“O segredo para desenvolver talentos como ele está na escola, que precisa de infraestrutura material e de professores capacitados. Na época em que o treinei, havia ao menos outros seis garotos em condição semelhante com potencial para alcançar a Seleção Brasileira. Infelizmente, eu não tinha como investir em todos”, conta Takahara.

Hoje aposentado, o professor Adalberto Pietro, 59 anos, concorda com o colega de profissão. Quando estava na ativa, a rede de ensino pública do DF contava com cinco Centros de Iniciação Esportiva (CID) dedicados ao tênis de mesa. Atualmente, restam apenas dois. “Em uma temporada, cheguei a receber R$ 24 mil para compra de material, que ainda está em uso. Agora, esse valor de custeio é de R$ 4 mil. Fica difícil manter o desenvolvimento nessas condições”, comenta.

O apoio da família também é elemento fundamental para a construção de um competidor de alto rendimento. Para preservar a rotina de seis horas diárias de treinos, que devem aumentar agora na Espanha, Luís Anjos contava com a ajuda dos irmãos para manter o rendimento escolar em dia. “Enquanto o atleta treinava, eu e meus irmãos preparávamos os trabalhos da vida de estudante dele”, revela a única irmã, Ana Luiza.